PERFIL
03/10/2017
Dra. Adriana Hartemink Cantini

Em nosso perfil de hoje, o breve relato da Dra. Adriana Hartemink Cantini sobre o papel das mulheres na Revolução farroupilha.
Relato que foi por ela apresentado na abertura da Semana Farroupilha 2017 do centro nativista Boitatá, emocionando todos os presentes.

O Papel da Mulheres na Revolução Farroupilha

Dra. Adriana Hartemink Cantini

“A história precisa ser reescrita a cada geração, porque embora o passado não mude, o presente se modifica; cada geração formula novas perguntas ao passado e encontra novas áreas de simpatia à medida que revive distintos aspectos das experiências de suas predecessoras.” (Christopher Hill).
Quero iniciar minha breve fala dizendo que pretendo, nesse rápido momento exaltar, não somente “Farroupilhas: idealistas, revolucionários e fazedores de história” que é o tema dos Festejos Farroupilhas de 2017, mas as mulheres farroupilhas, idealistas e fazedoras de história que ficaram esquecidas e pouco ou quase nada se sabe delas.
A Revolução Farroupilha é um dos temas mais pesquisados por historiadores, especialmente sob o ponto de vista político e, neste caso, é uma história masculina, uma história de guerreiros ricos ou pobres, brancos ou negros. Outros recortes ainda não foram suficientemente trabalhados, como é o caso do papel da mulher farroupilha e essa exceção se faz a Anita Garibaldi, mas com sua atuação sempre vinculada a de seu marido Giusepe.
É de se entender essa falta de citação na história, pois até o final do séc. XVIII ainda se discutia se as mulheres eram seres humanos como os homens ou se estavam mais próximas dos animais irracionais. A formação da mulher, desde a mais tenra idade era direcionada para cuidar dos afazeres domésticos, rezar, enquanto aguardava o casamento com o noivo escolhido pelo pai, casar, procriar e criar seus filhos. Somente no séc. XX descobriu-se que as mulheres eram sujeitos de direito, protagonistas da história e que de uma ou outra forma também fizeram a história!
Para contar os fatos acontecidos tempos atrás, são necessárias fontes históricas que se materializam através de documentos, de vestígios. E isso é uma dificuldade quando se trata da história das mulheres. Sua presença é frequentemente apagada, seus vestígios, desfeitos, seus arquivos, destruídos.
Então como responder a pergunta sobre “Qual o papel das mulheres na Revolução Farroupilha?”
Vamos tentar rever alguns momentos onde a participação da mulher na Guerra dos Farrapos foi relevante. Para tanto nos serviremos dos trabalhos da Professora Dra. Eloisa Helena Capovilla da Luz Ramos e da professora aposentada e Mestra Hilda Agnes Hübner Flores. Ambas pesquisadoras analisam o papel dessas mulheres consultando os Anais dos Arquivos Históricos de Rio Grande do Sul e assim descrevem sua participação na Guerra:

As mulheres estancieiras 
- Eram poucas em número, mas importantes por administrarem no decorrer da Guerra, as fazendas de criação que forneciam gado muar e equino para deslocamento e alimentação da tropa, e para pagamento de armas e munições vindas de Montevidéu. Algumas foram espoliadas e outras defenderam seus direitos. Olinda de Freitas, viúva de José Antônio de Freitas, só liberava animais mediante recibo assinado. Com firmeza, sustentou querelas com os estancieiros e os primos de Bento Gonçalves, tendo sido a mulher indenizada com maior valor no Pós-guerra, recebendo semelhante ao valor pago a Bento Gonçalves.
Bernardina Barcelos de Almeida, esposa do ministro Domingos José de Almeida, administrou a fazenda, a charqueada e a casa de exportação em Pelotas, onde em plena Guerra abriu escola para os filhos e crianças vizinhas.
As mulheres também tiveram sua presença firmada com doações de bens e dinheiro à causa Farroupilha e empréstimo de suas casas para a instalação dos quartéis e acomodação dos soldados e outras transformando suas casas e fazendas em entrepostos de correio.

As mulheres imigrantes alemãs: Fugidas das guerras napoleônicas, imigraram entre 1824 a 1830, e no minifúndio agrário da Colônia de São Leopoldo, integraram o trabalho familiar, que nele não via tabu. Educavam os filhos (os trazidos da Alemanha e os nascidos durante a guerra), cuidavam da casa, da horta e jardim; ordenhavam, costuravam, executavam o artesanato trazido da Europa e ainda praticavam o comércio. O Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul guarda cinco nomes de mulheres que trabalharam nessa ousada profissão para a época: Maria Weierbach, Catarina Voigt, Bárbara Petri e Mariana Diehl.

As mulheres guerreiras: foram as que acompanhavam seu homem para a guerra, como as chinas e as índias guaranis, que levavam os filhos consigo. O soldado amasiado, ao final da guerra ou as levava para casa, ou as abandonava porque a família rejeitava, ou
deixava-se ficar com ela e as crias, concorrendo para a miscigenação em especial no que respeita as mulheres índias.

As mulheres costureiras do exército: Conde de Caxias em 1842 veio para o Sul com poder pleno do Imperador, para terminar com a guerra que já durava oito anos. Formou um exército de 12 mil homens para vencer os farrapos que lutavam sem aquartelamento. Ao Arsenal da Guerra pediu 12 mil uniformes. Naqueles tempos a costura constava nas “prendas domésticas” ensinadas às mocinhas para confeccionarem seu enxoval. Na guerra civil todas, profissionais ou amadoras, legalistas ou farroupilhas, podiam se inserir na tarefa do Arsenal, que pagava por peça costurada à mão, já que ainda não tinha sido inventada a máquina de costura.

As mulheres professoras pioneiras. D. Pedro I em 1824 criou o ensino elementar, visando formar funcionários burocráticos para a corte. O ministro Domingos José de Almeida em 1838 decretou o ensino elementar obrigatório em toda a República Rio-Grandense, intento impedido pela penúria financeira trazida pela Guerra. Não havia educandários; cada professora mantinha a “aula” em sua residência Destacamos o trabalho de Florisbela Flores da Conceição, Zeferina Amada de Oliveira e Ana Francisca Pereira.

As mulheres intelectuais pioneiras - As intelectuais do período Farroupilha, são pioneiras no Brasil. É o caso de Maria Josefa Barreto Pereira Pinto. O jornalismo nasceu no Rio Grande do Sul com o Diário de Porto Alegre, em 1827, e rapidamente somou 40 periódicos, por instigação da guerra civil. Maria Josefa foi a primeira jornalista mulher.

Nísia Floresta Brasileira, por sua vez – Editou 15 livros e vários destes têm como pano de fundo a riqueza das chácaras e o furor destrutivo dos rebeldes, por isso a obra de Nísia se torna leitura obrigatória para estudar nossa guerra civil.

Para encerrar a lista que ainda vai revelar muito mais “heroínas farroupilhas”, na medida em que as pesquisas dos historiadores avançarem finalizo com ....

As mulheres que sofreram violência durante o decênio Farroupilha – Em especial a violência econômica e a pobreza e miséria profunda, porque seus maridos provedores estavam na Guerra. Além disso há que se destacar a violência física e sexual e o rapto, já
que ficavam sozinhas em suas casas ou estâncias sem a proteção masculina. Sobre isso não há registro nos arquivos históricos.

E as mulheres escravas na Guerra dos Farrapos – Que tinham uma dose particular de sofrimento na Revolução, dada a sua condição de privação da liberdade. Escravas e escravos têm uma história à parte na história da Revolução Farroupilha. Envolvidos em todos os serviços e nos dois lados da guerra eram usados também como moeda de troca nas dificuldades de seus patrões

E houve ainda a tentativa de inserção das mulheres na política, através do projeto de um “partido político feminino”, com Maria Josefa Fontoura e outras líderes, criticadas e ironizadas.

Mas, voltando à pergunta sobre qual o papel das mulheres na Revolução Farroupilha, podemos dizer que o papel que lhes coube foi principalmente o de ficar com a responsabilidade de ‘tocar a vida adiante’. Ficar nos bastidores da Guerra era também, na maioria dos casos, ficar abandonada à própria sorte, sem dinheiro e sem qualquer proteção. Para as mulheres escravas, ficar nos bastidores poderia ser ainda, a oportunidade esperada de uma fuga para além da fronteira e a chance da conquista da liberdade.

Muitas foram as heroínas desconhecidas, que lograram entrar na história, mas nem sequer seus nomes são conhecidos ou exaltados como o de Caetana esposa de Bento Gonçalves da Silva e de Elautéria, mulher de Manuel Antunes da Porciúncula.

Encerro dizendo que muito ainda há que se descobrir ainda sobre a Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha como conhecemos, porque há histórias não contadas, em especial sobre a atuação das mulheres nessa Guerra.

Hoje temos a consciência de nossos direitos, de nossa participação política necessária e a certeza de nosso papel enquanto mulheres gaúchas que lutam lado a lado com os homens para a construção de um Rio Grande melhor, mais justo e mais humano, sem que tenhamos de pegar em armas outra vez.

Lembremos a causa farroupilha, celebremos o 20 de setembro, mas sem esquecer que a tradição e os costumes farrapos tem uma dívida para com suas mulheres e a história precisa resgatar isso!

 

 








 

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