PERFIL
13/04/2017
Robson Thomas Ribeiro - 3º Peão do RS

Sou Robson Thomas Ribeiro, tenho 21 anos e atualmente resido na cidade de Santa Maria-RS, onde curso Licenciatura em Geografia na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). Minha segunda morada é Tuparendi, local em que nasci, me criei e onde vive a maior parte de minha família sanguínea, falo isso, pois o tradicionalismo me proporcionou várias outras famílias. Mesmo não sendo de São Borja e morando um pouco distante de lá, foi na terra dos presidentes que desencilhei o pingo e me aprocheguei no CTG Tropilha Crioula, que represento desde o ano de 2015.

Minha vivência tradicionalista iniciou quando eu tinha nove anos, com meu primeiro contado com uma entidade tradicionalista. Foi em um dia 12 de outubro, sábado, dia das crianças, que junto a minha irmã fui levado pelos meus pais na confraternização das invernadas do CTG Fronteira da Amizade, da cidade de Tuparendi. Era dia de gincana, algo que me encantou e me prendeu a atenção de vereda. No outro final de semana voltei ao CTG a partir dali comecei a dançar na invernada dente de leite.

No ano seguinte ao meu ingresso na entidade, concorri pela primeira vez em um concurso de peões, saí 2º Piazito. Daí em diante foram vários concursos dentro da entidade, fui piá e guri em várias oportunidades. Todos os anos eu e minha irmã concorríamos no concurso interno, nunca íamos para a região, pois nossa entidade desconhecia o tradicionalismo além das fronteiras de nossa pequena cidade. Houve um período em que critiquei essa posição, entretanto, hoje vejo o quão bonita era a nossa entidade... pouco conhecíamos de MTG e Tradicionalismo Organizado, mas tínhamos muito amor por aquilo que fazíamos. Na nossa simplicidade carregávamos muito do Rio Grande do Sul. Para nós, um passo errado em uma dança não fazia a mínia diferença, o que importava mesmo era todos terem a sua pilcha, todos poderem dançar, em fim todos estarem alegres cultivando a tradição. Ali naquele tablado de parquet que soltava uns pedaços a cada bate pé é que eu aprendi o sentido da verdadeira amizade e o significado da palavra nativismo.

Foi neste espaço de união, companheirismo, cooperação e simplicidade, que entendi o sentimento de ser gaúcho, que entendi que peão e prenda também varrem o salão do CTG, que também limpam os pratos para o fandango, que ajudam a cortar e separar as tábuas para o feitio de um novo tablado. Isto tudo, acredito eu, vem muito a calhar com o tema quinquenal do MTG, apresentado neste ano no 65º Congresso Tradicionalista realizado na cidade de Bento Gonçalves, “O voluntariado”.

Quando eu tinha 14 anos me afastei no CTG, foi no período em que morei por quase um ano no Paraná, quando meu sonho era ser jogador de futebol, e lá estava eu em busca deste objetivo.

Neste meio tempo minha irmã decidiu que queria ser prenda regional como aquelas que ela via nos Encontros Regionais de Patrões. Eu acompanhava de longe e mesmo com poucas informações conseguia entender que era uma tarefa um tanto quanto difícil, afinal nossa pequena entidade jamais havia tido representantes em uma Ciranda ou em um Entrevero regional.

No dia do seu concurso eu viajei 12 horas de ônibus para poder prestigiar o seu trabalho, foi ai que comecei a admirá-la como tradicionalista. Mesmo sendo bastante inexperiente, através do seu esforço ela conseguiu alcançar muito além do seu objetivo, se sagrou 2ª Prenda da Terceira Região Tradicionalista. E foi motivado por este baita acontecimento e que abandonei o sonho de jogar futebol e decidi ser como ela, um dos representantes da 3ªRT.

Voltei ao CTG e a partir daí foram dias de muita aprendizagem e cada vez mais crescia a minha vontade de aprender sobre o nosso estado, em espacial sobre os usos e costumes dos campeiros deste pago.

Um ano após o meu retorno ao CTG Fronteira da Amizade, juntamente com minha irmã concorri no concurso interno me sagrando Primeiro Peão e ela Primeira Prenda. Consequentemente, no ano seguinte, juntamente com os outros 6 companheiros e companheiras de gestão interna, fomos rumo a São Borja, para o meu primeiro Entrevero Regional.

Fui meio sem saber, meio acabrunhado, mas não me achiquei e ao final daquele concurso saí 2º Peão Regional. Minha irmã ficou segunda prenda, o que no momento foi um pouco triste, pois ela já carregava o sonho de representar o estado. Bah, foi uma gestão de muito aprendizado, conheci muita gente buena e aprendi muito sobre o nosso estado e sobre o nosso Movimento.

Depois desta gestão retornei mais três vezes ao concurso regional, em duas destas, com muita tristeza, fiquei fora da gestão. Reconheço que, de certa forma, a euforia de ter sido regional subiu um pouco à minha cabeça e passei a achar que tudo era fácil e eu não precisava me preparar tanto assim.

Quando veio a primeira derrota, por imaturidade, coloquei a culpa não sob meus erros, não culpei o meu desinteresse e sim as pessoas que me avaliaram.

Depois veio a segunda derrota e então eu percebi que faltava esforço da minha parte, faltava empenho, faltava humildade e, principalmente, faltava vontade de mudar, de aprender com os pais velhos e mais experientes que eu. Enquanto eu amargava estas duas derrotas, tive o prazer e a felicidade de acompanhar a preparação da minha irmã para a 45ª Ciranda Estadual de Prendas, na qual ela se sagrou 3ª Prenda do Rio Grande do Sul, me enchendo de orgulho e me tornando ainda mais seu admirador.

No dia após a segunda derrota, diferentemente dos outros anos, não tive aquela vontade de desistir e/ou achar culpados para o meu desatino. Pelo contrário, senti uma vontade inquietante de buscar a mudança reconhecer os erros e me transformar, posso dizer que foi um impulso sincero de pura humildade.

Junto com esta mudança interior veio um convite inesperado: a querida Eduarda Teixeira Streck, atual 3ª Prenda da 3ªRT, uma das grandes responsáveis pelo meu amadurecimento, sabendo de tudo que acontecia comigo e com a minha entidade no momento, convidou-me para ingressar no CTG Tropilha Crioula, da cidade de São Borja, entidade que ela e meu grande amigo Pedro Ernani, atual 1º Guri do RS representavam.

Com sede de mudança, lá me fui preitear novos horizontes. A terra do primeiro dos sete povos me acolheu como um de seus filhos. Fui muito bem recebido na minha nova entidade me sentindo em casa logo nas primeiras visitas. Pouco tempo depois fiquei peão da entidade, fui um ano de novas descobertas, até que chegou o concurso regional mais uma vez, mas agora era diferente, representava outra entidade, trazia em meus pessuelos novos conhecimentos, e a convicção de o que mais era válido para um peão é a sua simplicidade e humildade.

Ao termino das provas mesmo sem saber o resultado, me sentia realizado, pois havia ocorrido tudo como eu realmente esperava, estava feliz comigo mesmo.

Então veio o baile de divulgação, a tensão era extrema, pois além de me preocupar com o meu resultado, estava preocupado com o resultado das pessoas que amo e também estavam concorrendo. Eu torcia muito pelo sucesso delas.

Lembro como se fosse hoje, nossa gestão interna estava em um canto da sala com a bandeira do Tropilha Crioula, estávamos abraçados, e emoção era grande. O primeiro grito de alegria veio quando Eduarda Teixeira Streck companheira de gestão interna foi chamada para ocupar o encargo de 3ª Prenda. Depois veio mais alegria quando o Pedrinho (Pedro Ernani) foi chamado para ocupar o encargo de 1º Guri. E então lá fiquei eu sozinho, mais uma vez, mas agora era diferente, ainda faltava chamar o 1º Peão e eu acreditava que havia grandes chances de ser eu...

Começou o discurso de divulgação, e a cada frase era maior o apavoramento, eu não conseguia acreditar, mas as descrições corriam ao meu favor, foi que então que veio o grito de é dobradinha! “- O primeiro Peão da 3ª Região Tradicionalista é Robson Thomas Ribeiro!”

Que festa baguala, eu era um dos representantes da 3ª RT e teria a honra de representar a minha região missioneira no Entrevero Estadual de Peões.

Mas antes de tudo isso, tive um baita ano de gestão, de muito trabalho, aprendizado, rodeado de amigos que irei levar no coração aonde quer que eu esteja. Neste ano de gestão consegui realizar alguns outros sonhos como a 1ª Carijada Missioneira, evento que há muito tempo queria realizar e tive a honra de poder tornar real no início deste ano com a ajuda essencial da Prenda Eduarda Teixeira Streck, da minha família, da 3ª RT e do CTG Tropilha Crioula, não esquecendo todas as outras pessoas que tiveram papel atuante na construção e desenvolvimento deste evento.

No evento que vos falo, com a colaboração do meu vô, falei sobre o plantio, colheita e produção da erva mate no estado, e até construímos um carijo em tamanho real, aonde carijamos ramos de erva durante uma noite toda. Dias após evento eu, meu pai e meu avô cancheamos a erva e socamos num pilão e assim que ela ficou pronta distribuindo a mesma nos eventos posteriores entre as entidades participantes do evento. Trago esta informação, pois são em atividades como estas aprendendo com os mais tordilhos é que realmente resgatamos a essência do nosso tradicionalismo, valorizando a figura dos homens e mulheres do campo.

Sem dúvidas o que fez deste evento tão especial foi a participação de meu avô, figura ímpar no meu desenvolvimento como pessoa e tradicionalista.O vô Sergio pouco usa a tal da bombacha, mas traz dentro de si enraizada a essência do gauchismo, o amor pelas coisas desta terra, traz a vivência de tempos que nós, jovens, só teremos o prazer de conhecermos em livros e da boca desses cernes da nossa cultura. Por isso devemos valorizar estas pessoas, estes homens e mulheres forçados pela vida e que carregam consigo um conhecimento riquíssimo. É por isso que me orgulho deste senhor e sempre que posso sento da beira do fogão de lenha para escutar as suas histórias e seus conselhos, é com este senhor que aprendi muito do que sei da lida e também da vida.

E então veio Entrevero em fase estadual, cheio de imprevistos e emoções. Foram dois dias pondo em prática todo o aprendizado de anos, mas para a minha felicidade e felicidade da caravana missioneira que estava comigo, com o Pedro 1º Guri da 3ª RT e com o 1º Piá da 3ª RT, Alef, tudo acorreu da melhor forma possível. Não falo que acorreu tudo da melhor forma por eu ter me sagrado 3º Peão do Estado e pelo Pedro ter alcançado o título de 1º Guri do Estado, digo isso pois independente do resultado, nós três, representantes da 3ª Região, fizemos um baita concurso e, cada um do seu jeito, encantou e orgulhou aqueles que sempre nos apoiaram e torceram por nós.

Se hoje represento o Estado do Rio Grande do Sul é graças a minha família e aos grandes amigos que cultivei durante minha caminhada. A empreitada que culminou no último final de semana foi muito difícil, mas sempre tive pessoas magníficas do meu lado que me estenderam a mão e não deixaram que eu desistisse. Foram inúmeras as palavras sinceras que, em momentos de fraqueza, não deixaram que eu esmorecesse.

E quando me perguntam o que eu ganho com estes concursos, a primeira coisa que penso é nisso, estas amizades que construi durante minha caminhada e o prazer imenso de representar o meu chão e a minha história. Mesmo abdicando de algumas coisas por momentos, esta caminhada jamais foi em vão. Sim, tem como conciliar tudo a árdua preparação com momentos de lazer. Acredito que seja uma questão de organização e planejamento, tendo em nosso cotidiano um momento resguardado para cada tarefa. Acredito que em momentos de concurso não devemos nos isolar do mundo, mas é algo muito pessoal, pois no meu caso eu tenho um maior rendimento se estiver rodeado de amigos, e o meu estudo é muito mais efetivo quando o meu corpo e a minha mente estiverem bem descansados.

Para finalizar gostaria de agradecer a toda a minha família e amigos, a minha entidade, a minha região missioneira e aos meus queridos colegas de gestão que estiveram do meu lado durante toda a minha preparação.

Gostaria de dizer aos peões que, como eu, sonham em representar o nosso estado, que tratem com carinho este sonho e apenas sigam em frente se este for sincero e não esteja vinculado com questões de ego. Leiam muito os livros que vocês têm a disposição, mas também busquem o conhecimento nas pessoas mais tordilhas, mais experientes. Escutem seus pais, escutem seus avós, pois estes são guardiões de um saber ímpar.

Fiquem atentos aquelas pessoas simples residentes no campo e que muitas vezes são descartadas pela sociedade, saibam que os galpões ainda abrigam muita história, não deixe que esta riqueza se perca. Valorizem as mulheres e os homens do interior e se puderem registrem este saber, para que nossa cultura não vire apenas uma “cultura de fantasias”, como já dizia Barbosa Lessa. Sejam humildes, aprendam a reconhecer os seus erros e acima de tudo valorizem a nossa cultura, façam com que o tradicionalismo seja algo verdadeiro a brotar em suas almas, façam da tradição sua própria identidade.

 

 















 

Table 'jjbetimc_sitiojj.contador' doesn't exist